Angra do Heroísmo é cidade Património da Humanidade, classificada e inserta na lista da Unesco e constituem-na actualmente cinco freguesias urbanas, entre elas a da Sé, orago da primitiva igrejinha, padrão dos primeiros tempos do povoamento, fundada ainda por Álvaro Martins Homem. Com efeito, um pequeno núcleo de povoadores a partir de 1450 ocupou uma relativamente extensa faixa territorial no litoral sul da ilha Terceira e ali fundou um povoado a que deu o nome da própria igreja ou ermida que entretanto levantaram sob a invocação de São Salvador. Desta maneira nasceu essa primeira povoação de São Salvador, que, assim passou a ser designada. A sua data de criação como paróquia ou freguesia não é claramente descortinável nos nossos antigos cronistas e mesmo modernos historiadores. Drumond, p. ex., nos Anais, considera ter havido a tal respeito muita confusão nessa matéria, e um nosso contemporâneo investigador Pedro de Merlim, na sua obra As 18 paróquias de Angra, alega que em 1478 a povoação de São Salvador ascendeu a vila, de admitir-se (?) - diz ele - “que a essa data fosse já freguesia”. Quanto a nós e à falta de documentação que surja por aí mais concludente, preferimos evidenciar que a paróquia ou freguesia de São Salvador só foi tida e havida como freguesia da Sé após a instituição do bispado de São Salvador de Angra em 1534. Pois é lógico que foi a instituição da Sé Catedral que fez mudar o topónimo para freguesia da Sé. Até como homenagem pelo prestígio alcançado com a honraria papal. Refira-se a propósito que a freguesia da Sé era de muito maiores proporções, pois abrangia todo o lugar de Santa Luzia que lhe foi desanexado para formar paróquia independente em 1595, o que reduziu a primeira às dimensões actuais.

            A Sé ocupa uma extensa orla marítima e tem-se tornado notável por várias circunstâncias, nomeadamente pela sua situação geográfica, pelo seu porto, outrora de riquíssimo comércio e vastíssimas navegações, pela sua linha defensiva de muralhas, cortinas, baluartes e revelins, num conjunto extenso de inexpugnabilidade e estratégia militar do século XVI, que até usufruiu de uma Academia Militar no séc. XVIII, com aula de matemática. Sobre essa famosa baía que a Sé divide com a Conceição, se integra o maior castelo dos Açores, que mais propriamente pela sua extensão e contornos se encaixa na designação de cidadela. De qualquer forma é também uma das maiores fortalezas da Europa, de seu nome de baptismo Castelo de S. Filipe, por haver sido construído logo após o domínio castelhano na Terceira e, com a Restauração de 1640, passou a chamar-se de São João Baptista.

            Só por si, essa enorme área fortificada é um monumento de incontestável interesse histórico que notabiliza a freguesia da Sé. Mas a Sé está enriquecida com uma marina para embarcações de recreio e uma praia de areia, única em todo o concelho de Angra e que nos primórdios da descoberta foi estaleiro naval de navios “grandes e pequenos”. Porém, no seio citadino da Sé, ergue-se, majestosa a grandiosa catedral barroca cuja diocese foi fundada a 3 de Novembro de 1534 pela bula aquum reputamos do Papa Paulo III a instâncias do Rei de Portugal D. João III, o Piedoso que no mês de Agosto anterior, a 21, elevou ao foro de cidade a metropolitana Angra, que recebeu na antiga igrejinha de São Salvador as honras de ser bispado. E assim se elevou a Sé a mãe espiritual de todas as igrejas, ermidas, capelas e oratórios dos Açores, com o seu corolário de mosteiros e conventos, como o de São Gonçalo, nos Quatro Cantos, o da Esperança, quase frente à Sé, onde professavam as Irmãs da Ordem de Santa Clara, em cuja cerca e reduto foi a freguesia da Sé dotada com um mercado tradicional de frutas e legumes, carne e peixe “ Duque de Bragança” que ainda subsiste, apesar das novas superfícies concorrenciais que vão surgindo nos tempos actuais, e, no Alto das Covas, os frades gracianos regeram por centúrias uma vida de santidade, religião e dedicação no ensino, no canto, na música e nas artes. Realce-se igualmente, o Colégio dos Jesuítas, famoso pelo seu Pátio dos Estudos, pelo seu saber e oratória. Esses dignos filhos da Companhia de Jesus tiveram o seu primeiro colégio na Rua que por isso mesmo veio a chamar-se de Jesus, freguesia da Sé, e no séc. XVII inauguraram a sua segunda casa onde hoje existe o Palácio dos Capitães Generais, edifício que no seu longo percurso tem dignificado a freguesia da Sé. Os valores patrimoniais desta freguesia são imensos, cuja enumeração em pormenor seria fastidiosa. Mas, alguns edifícios públicos e privados merecem referência, como o da Carreira dos Cavalos, que foi paço episcopal, hoje Paço da Junta Geral, onde funciona a Secretaria Regional da Educação e Ciência, de construção apalaçada, a casa nobre onde viveu D. Violante do Canto, grande apoiante de D. António, Prior do Crato, actual sede do Sport Club Lusitânia, o próprio e característico casario da freguesia, a zona dos Quatro Cantos, historicamente conhecida como o “quartel dos espanhóis, na proximidade do antigo hospital militar do domínio castelhano em cuja ermida anexa da invocação de El Tercio, depois cognominada da “Boa Nova”, histórica por haver sido cenário da capitulação castelhana e entrega do castelo. Histórica ainda por ali ter pregado o célebre jesuíta Padre António Vieira e ali  instituído a devoção do terço, segundo reza antiga tradição.

            No sopé do Portão dos Carros que dá acesso à famosa fortaleza, rodeada de profundos fossos e portas falsas, fica o Relvão, que foi cenário de exercícios militares e carreira de tiro das guarnições do Castelo. Perto uma velha guarita da guarda, o conhecido Tanque do Azeite e o Chafariz de El-Rei.

            Alguns símbolos da freguesia da Sé são há muito desaparecidos, como os velhos cruzeiros de pedra que se erguiam em vários pontos da cidade e a Sé tinha, pelo menos, um no Alto das Covas e outro perto da Igreja do Colégio da Companhia de Jesus. Porém, ainda ficaram as covas, reservatórios subterrâneos onde se guardava o trigo, daí a lembrança toponímica do Alto das Covas.

            Uma característica da religiosidade popular de outros tempos era a existência de nichos existentes no exterior dos edifícios, tal como se admira ainda no cunhal de uma casa na esquina da Rua de Jesus com a Rua do Barcelos e outro na travessa dos “Minhas Terras”que o povo conhece pela “Verónica”, pequeno nicho ainda ali existente, que, segundo antigas filosofias, costumes, superstições e tradições, protegiam a urbe e os seus habitantes dos malefícios da noite.

            No rossio da cidade de Angra, já nos limites da freguesia da Sé, que fora pântano ou lodaçal em tempos primitivos, tornado Praça Velha rodeada de nobres casas solarengas, depara-se desde logo com um edifício de grande porte e beleza que se altaneira sobre os escombros da antiga câmara, e aparece renovada a domus municipalis, sumptuosa a todos os títulos, externa e internamente, dignificando só por si a freguesia da Sé. Isto se não existissem outros monumentos que lhe dão uma tonalidade especial e referimo-nos à Misericórdia, junto às Portas do Mar, onde existiu o primeiro hospital dos Açores e um dos primeiros do país – o de Santo Espírito - notável ainda pela presença física no retorno e descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, do famoso almirante Vasco da Gama, no louvável intuito de salvar seu irmão doente o capitão Paulo da Gama, que ficou sepultado em São Francisco. Ainda a não menos famosa alfândega, a primeira dos Açores. Fale-se ainda do Cais da Cidade e do Cajinho Novo, que registam também história e onde se fixa o Clube Náutico, motivado para desportos marítimos.

            Nos Quatros Cantos, na Rua Recreio dos Artistas, colhe-se também a existência de uma ermida – a do Espírito Santo - integrada nas casas que pertenceram ao caudilho da Restauração terceirense de 1640 Francisco de Ornelas da Câmara, que se tornou figura lendária pela história espantosa que dele se conta.

            E lembrando tempos bem mais aventurosos, de odisseia marítima, de descobertas e povoamentos, ainda se ergue no extremo da freguesia da Sé, na falda do Outeiro, coroada pelo Castelo dos Moínhos, que ali existia como uma reminiscência medieval no povoamento de Angra, a “ Casa do Capitão” ou casa dos “Cortes Reais”, navegadores dos mares da América e senhores da jurisdição de Angra.

             Na freguesia da Sé há ainda muitos outros aspectos que mereciam melhor referência, mas alguns deles não podemos olvidar, por estarem intimamente ligados à geografia da paróquia e freguesia da Sé. O parque do Monte Brasil, rodeado de estruturas militares, com os seus três picos, o do Facho, o das Cruzinhas, onde existe monumento levantado à memória dos 500 anos dos  Açores e o do Zimbreiro, preciosa reserva de plantas endémicas, a “Quinta do Regalo”, mandada construir por um governador espanhol, D. Gonçalo Mexia, no séc. XVI, personalidade que denotava bom gosto e  cultura , a qual rematava no cimo da vertente com a ermida de Santo António. Outra referência vai para o régio prisioneiro, que viveu no palácio do Castelo de São João Baptista, que assim teve honras de Paço Real, onde uma pequena corte servia o Rei deposto D. Afonso VI, mais tarde transferido para o palácio de Sintra, onde faleceu.

            Não se pode deixar de falar ainda no ensino da música nesta freguesia da cidade que tem sido verdadeiro expoente a centenária Sociedade Filarmónica de Instrução e Recreio que do extinto Convento da Graça no Alto das Covas veio ocupar a antiga “Casa do Deão”, nos Quatros Cantos, onde regeram insignes maestros e se fez escola de música, nem se pode esquecer que também aqui se iniciaram os primeiros passos e ensaios do agrupamento musical da Canção regional terceirense, a que se ligaram algumas figuras importantes como a poetisa Maria do Céu, pseudónimo de D. Maria Francisca Bettencourt, Henrique Vieira de Borba, músico e crítico musical e outros muitos mais que contribuíram para a elevação e dignificação do folclore terceirense, já de si com justa fama. Como ainda não é possível evitar um olhar retrospectivo para aquele agrupamento musical, que foi a Banda Militar e as suas famosas execuções na cidade de Angra que marcaram uma época dourada ainda hoje recordada com saudade na musicalidade terceirense.

Freguesia da Sé, Setembro de 2009.

 

Valdemar Mota

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